Para culminar o estudo do Espanhol no Ensino Básico, as turmas do 9.º ano do Agrupamento de Escolas Carlos Amarante cruzaram a fronteira para uma imersão em Santiago de Compostela, cidade Património da Humanidade, desde 1985. Através de uma dinâmica de “caça ao tesouro”, os alunos transformaram-se em investigadores com o objetivo simbólico de desvendar os mistérios do lendário Códice Calixtino e de contactar in loco com mais uma rota emblemática, no âmbito do projeto internacional eTwinning “Rutas por Europa”, que conta com escolas parceiras em Portugal, Itália e Espanha.
No dia 30 de abril de 2026 a aventura começou bem cedo, com a partida de Braga às 07:00 horas. Após uma breve paragem em Pontevedra, os alunos ouviram a lenda da Batalha de Rande, que se travou na ria de Vigo (em 1702), onde os galeões espanhóis se afundaram, carregados com o maior tesouro que jamais cruzara o Atlântico, mas nunca se soube onde. Júlio Verne, no seu romance “20.000 léguas submarinas”, transformou a personagem Capitão Nemo no primeiro caça-tesouros da ria de Vigo. Desde então, intensificaram-se as imersões nas águas da ria à procura do tesouro e em 2011 localizaram-se seis destroços relacionados com a batalha.
A viagem continuou e os estudantes chegaram à icónica Praça do Obradoiro, por volta das 11:30 horas, prontos para um dos momentos mais aguardados da viagem: um Peddy-Paper dinâmico pela cidade, orientado pela escritora Ainoa Polo, autora da obra “Buen Camino“, estudada nas aulas de Espanhol. Esta obra integra contos relativos aos dez caminhos de peregrinação a Santiago de Compostela e conta, ainda, com atividades e recursos multimédia a que os leitores podem aceder com códigos QR. O grande desafio começou em frente ao Parador de Santiago – Hostal Reis Católicos (do séc. XV) com a distribuição dos alunos por equipas, cada uma das quais associada a uma das ordens monásticas militares da Idade Média, nomeadamente a Ordem de Santiago, Calatrava, Alcântara, Hospitalários e Templários. Nesse momento a escritora explicou às equipas que o Códice Calixtino, um manuscrito iluminado de meados do século XII, se encontrava até recentemente conservado no Arquivo da Catedral de Santiago de Compostela, tendo sido comunicado, no dia 5 de julho de 2011, que tinha sido roubado desse local. E assim as diferentes ordens teriam por missão recuperá-lo e superar oito etapas que colocariam à prova os seus conhecimentos.


A saber: Etapa 1 “Geografía de las rutas” dedicada à identificação de 10 caminhos de Santiago num mapa.
Etapa 2 “Qué llevan los peregrinos” dedicada à exploração de vocabulário sobre os objetos que um peregrino leva na sua mochila e sobre as suas emoções ao longo do percurso.
Etapa 3 “Rutas Jacobeas” exploradas através de entrevistas a peregrinos de diversas nacionalidades (testemunhos registados para a Rádio Escola, mais concretamente para o podcast AECA Talks).





Etapa 4 “Asignaturas y vida Universitaria” sobre disciplinas e horários dos alunos espanhóis. Esta prova foi realizada dentro do Colégio de Fonseca (fundado em 1526), que é um dos edifícios mais históricos da Universidade de Santiago de Compostela (USC). Neste mesmo local foi também realizada a entrevista à escritora Ainoa Polo (cf. episódio do AECA Talks).
Etapa 5 “Economía, Historia y Matemáticas” dedicada à exploração de elementos do interior da Catedral, nomeadamente ao “Botafumeiro” (incensário de 62 Kg, usado como instrumento de purificação);


Etapa 6 “Gastronomía y Nutrición” dedicada à exploração de ingredientes e pratos típicos galegos (como a famosa Tarta de Santiago, Pulpo a feira e pimentos padrón). Esta etapa foi realizada no Mercado de Abastos e nas ruas que lhe são contíguas.
Etapa 7 “Códice Calixtino y Música” dedicada à exploração de um fragmento do Códice, contendo o mais antigo cântico de peregrinos, encontrado até hoje. Aqui explorou-se a expressão latina “Ultreia et Suseia” e a sua forte ligação à tradição cristã medieval. Embora a expressão “Bom Caminho”/ “Buen Camino” seja mais comum hoje em dia, ela não foi a primeira a ser usada. Durante o percurso, era recorrente que os caminhantes ouvissem palavras de força e encorajamento tanto dos habitantes dos locais por onde passavam, quanto de outros peregrinos. A palavra “Ultreia”, que pode ser traduzida como “vamos mais além”, era usada para incentivar a jornada, como um reforço positivo, incentivando os peregrinos a seguir em frente com fé e superar os desafios do caminho. Já a palavra “Suseia” seria usada como resposta, podendo ser traduzida como “Em frente com esperança!”. A junção das duas palavras reflete uma mensagem de apoio mútuo. Por isso, esta expressão tornou-se um símbolo da jornada espiritual, refletindo a ideia de que cada passo à frente é um ato de perseverança.
Etapa 8 “Cultura General” dedicada a um mergulho no coração pulsante de Santiago. Nesta última etapa, à medida que as equipas decifravam os mistérios da língua espanhola, os seus sentidos eram inundados: o som persistente das gaitas de foles ecoava no ar, fundindo-se com o ruído frenético e metálico das bicicletas que anunciavam novas vitórias sobre o asfalto. Num ritmo contínuo, os alunos testemunharam o impacto das lágrimas de quem completa a jornada. Era um cenário de contrastes, repleto de abraços apertados entre desconhecidos, de cânticos que vibravam nas gargantas cansadas e o silêncio denso e profundo das orações de quem, finalmente, se reencontra consigo mesmo, após tantos quilómetros de caminho. O alvoroço dos que chegavam contagiava os alunos, provando que aprender uma língua e uma cultura é, afinal, como percorrer o Caminho: uma viagem onde cada passo tem o brilho da descoberta.

Concluído o Peddy-Paper, chegou o momento de visitarem o “Museo de las Peregrinaciones”, acompanhados em pequenos grupos por guias. Em diferentes salas exploraram a peregrinação como fenómeno antropológico universal, presente em todas as civilizações ao longo da história. Nesta visita, os alunos foram convidados a escolher três objetos, que considerassem mais interessantes no museu. Alguns dos escolhidos foram: O Guia do peregrino (fragmento autêntico do Códice Calixtino)”, o “tesouriño” (conjunto de moedas do século XII) e as figas de azeviche (originado da fossilização de árvores e que se carateriza pela sua cor preta), que eram usadas como amuletos de proteção.

No museu tiveram também acesso à exposição “KUMBH MELA – El baño de la inmortalidad”, com fotografias de Manuel Valcárcel, organizadas sobre peregrinações do mundo. Em destaque surgiu a fotografia “Peregrino al lado del Ganges”. No final da visita uma das guias foi entrevistada (cf. episódio do AECA Talks).

O almoço, realizado ao ar livre nas proximidades da majestosa Catedral, foi um momento de partilha e descanso. Entre lanches e conversas, os alunos aproveitaram para explorar as ruas comerciais da Cidade Velha e para adquirir recordações da cultura galega, sempre rodeados pelo cenário arquitetónico único que define o centro histórico.
No início da tarde realizou-se um momento mais intimista, em grupos reduzidos, os alunos entraram na Catedral, atravessaram o Claustro e aproximaram-se do Altar principal de estilo barroco, onde luzidio se evidenciava o famoso “Botafumeiro”, suspenso do teto da nave central. Num ambiente silencioso, contornaram o Altar Superior (pelo lado esquerdo) e aí desceram àzona mais sagrada da basílica. Foi ali, na quietude da Cripta, diante da urna de prata onde repousam os restos mortais do Apóstolo Santiago que os alunos entregarem, de forma simbólica, os seus textos e desejos, em conexão com a tradição de milhões de pessoas que, ao longo dos séculos, ali deixaram as suas esperanças. Esta passagem transformou a visita numa vivência pessoal e espiritual, tornando a história de Santiago de Compostela algo muito mais próximo da realidade de cada aluno. De seguida subiram ao camarim atrás do Altar-Mor da Catedral para abraçar a estátua do Apóstolo Santiago (datada do século XII), envolvidos num ambiente de paz e serenidade, que convidava à reflexão.
A tarde foi reservada para uma mudança de cenário. Pelas 16:30, o grupo deslocou-se para a imponente Cidade da Cultura, visitando o Museu Centro Gaiás. Esta paragem permitiu aos estudantes contrastar a herança medieval de Santiago com a vanguarda arquitetónica e artística contemporânea da Galiza.

Considerado como uma referência arquitetónica do século XXI, o Museu Centro Gaiás é um edifício singular que aspira tornar-se o centro expositivo de referência da Galiza. A espetacularidade da sua fachada, os quase 43 metros de altura e os seus mais de 16.000 metros quadrados de superfície permitem ao Museu desenvolver uma vasta oferta de atividades formativas e de divulgação. Destaque-se a exposição “Las estaciones del año en el arte gallego de los siglos XX y XXI”, onde os alunos se detiveram a observar fotografias do autêntico mundo rural galego e a exposição “Mundo expandido. Entre lo físico y lo virtual”, que explora os limites da realidade física e da simulação digital e aprofunda os efeitos da explosão dos mundos virtuais nas nossas vidas. Conta com objetos históricos, instalações imersivas, videojogos, aplicações de realidade aumentada e reflexões sobre o metaverso de diversos artistas. Ao mesmo tempo, convida à reflexão sobre o desejo humano de habitar mundos simulados e sobre a relação atual entre a realidade física e os mundos virtuais, bem como sobre as suas implicações éticas, filosóficas, legais, sociais e económicas. E, assim, chegou ao fim a viagem a Santiago de Compostela, um destino onde tradição e modernidade convergem em perfeita simbiose.
Para mais informações sobre esta imersão linguística e cultural, seguem-se os links de acesso:
- Para explorar a obra “Buen Camino” de Ainoa Polo e descarregar um capítulo de amostra. Mais info em: https://www.freshlinguas.com/producto/buen-camino/
- Compilação de materiais sobre a obra “Buen Camino”. Mais info em: https://padlet.com/mlmapmn2022/buen-camino-de-ainoa-polo-sanchez-gh8snwj0t9vsu65j
- Visita ao “Museo de Peregrinaciones de Santiago de Compostela”. Mais info em: https://museoperegrinacions.xunta.gal/es
- Exposição “Kumbh Mela – El baño de la inmortalidad” com fotografias de Manuel Valcárcel “Piro”. Mais info em: https://museoperegrinacions.xunta.gal/es/exposiciones/kumbh-mela
- Visita à Cidade da Cultura/ “Museo Centro Gaiás”. Mais info em: https://www.cidadedacultura.gal/es/content/museo-centro-gaias
- Exposição “Las estaciones del año en el arte gallego de los siglos XX y XXI”. Mais info em:
https://www.cidadedacultura.gal/es/evento/las-estaciones-del-ano-en-el-arte-gallego-de-los-siglos-xx-y-xxi - Exposição “Mundo expandido. Entre lo físico y lo virtual”. Mais info em: https://www.cidadedacultura.gal/es/evento/mundo-expandido-entre-lo-fisico-y-lo-virtual
Para finalizar, aqui fica um especial agradecimento a todos os alunos que se empenharam nesta aventura, aos professores que os acompanharam e a todos aqueles que tornaram possível a concretização desta visita de estudo, que foi a última do Ensino Básico para os estudantes de Espanhol do 9.º ano. A todos “Buen Camino”.
Professoras dinamizadoras: Maria de Lurdes Martins e Rosário Cacholas



